O setor segurador precisa de jovens (e os jovens precisam de conhecer o setor)

Durante anos, o setor segurador foi associado a uma imagem pouco apelativa: burocracia, processos lentos e carreiras previsíveis. Esta perceção instalou-se no imaginário coletivo, sobretudo entre os mais jovens, e afastou (muito) talento que hoje faz (muita) falta. Mas a verdade é simples – o setor segurador já não é aquilo que muitos pensam que é.

Mesmo que nem todos tenham reparado, esta indústria reinventou-se por completo no seu passado recente. A digitalização, a automação de processos, a análise avançada de dados, a Inteligência Artificial (IA) e a personalização da experiência do cliente passaram a ser prioridades.

As seguradoras, corretores e mediadores de seguros investem hoje em tecnologia, experiência do utilizador, eficiência operacional e inovação de produto tal como na banca, na auditoria ou na indústria. Trabalham com grandes volumes de dados, desenvolvem modelos preditivos e repensam processos à luz da agilidade e da simplicidade.

Mas há uma dimensão que continua pouco visível e que é essencial compreender: a corretagem de seguros é, hoje, uma atividade de consultoria especializada. Mais do que intermediar apólices, os profissionais deste setor analisam riscos, interpretam necessidades específicas e desenham soluções ajustadas a cada cliente, seja ele uma empresa ou um particular.

Podemos ainda abordar a discussão sobre IA, que atravessa todos os setores e o segurador não é exceção. A capacidade de analisar grandes volumes de dados, identificar padrões, antecipar riscos e personalizar soluções representa uma autêntica revolução.

Neste contexto, a IA surge não como substituta, mas como aliada. Permite agilizar tarefas administrativas e processos de análise, libertando tempo para aquilo que realmente diferencia a corretagem – a relação, a proximidade e o aconselhamento ao cliente.

Nada disto é compatível com a ideia de um setor “parado no tempo”. Contudo, persiste uma distância entre a realidade interna e a perceção externa, especialmente junto das novas gerações.

Na mediação, por exemplo, a média de idades dos profissionais mantém-se estavelmente nos 53 anos desde há 12 anos e apenas 8% dos mediadores tem até 35 anos de idade*. Este facto, por si só, levanta questões importantes: como assegurar a continuidade do conhecimento? Como promover a inovação? Como garantir competitividade num mercado em tão rápida evolução? Mas esta realidade é, na verdade, também uma oportunidade extraordinária.

A combinação entre toda esta experiência acumulada e a abordagem do Talento Jovem pode ser uma das maiores vantagens competitivas do setor. O know-how técnico de décadas, aliado à fluência digital, ao pensamento crítico e à adaptabilidade das novas gerações cria uma dinâmica muito poderosa.

A IA permite automatizar tarefas repetitivas, libertando tempo para atividades de maior valor acrescentado, mas é essencial sublinhar a ideia de que a tecnologia não substitui o pensamento crítico, a ética ou o julgamento humano, em especial quando falamos de Pessoas.

Na corretagem, esta dimensão humana é ainda mais crítica, dado que estamos a falar de decisões que impactam diretamente a proteção de pessoas, patrimónios e negócios. A confiança constrói-se com conhecimento técnico, mas também com proximidade e capacidade de aconselhamento.

Num setor que lida com risco, património, proteção e confiança, a supervisão humana é indispensável. Precisamos de profissionais capazes de interpretar, questionar resultados, tomar decisões e garantir o equilíbrio entre a eficiência tecnológica e a sensibilidade humana. Para isso, porém, é necessário que os jovens conheçam verdadeiramente o setor, e que o setor saiba comunicar melhor o que é hoje.

Há um equívoco estrutural na forma como o setor é visto: tende a ser reduzido a contratos e burocracia. Na realidade, estamos a falar de gestão de risco, proteção de projetos, apoio em momentos críticos e estabilidade económica. Estamos, sobretudo, a falar de uma função consultiva com impacto direto na vida das pessoas e das organizações. Que outro setor tem como missão estrutural antecipar e salvaguardar o futuro?

O setor segurador é, em última análise, um setor de pessoas. Trabalhamos diariamente pela vida das famílias e das empresas. Num mundo cada vez mais incerto, marcado por alterações climáticas, instabilidade geopolítica, riscos cibernéticos e novas dinâmicas sociais, a função do setor segurador torna-se ainda mais relevante.

É aqui que as novas gerações poderão ser determinantes. Estas procuram propósito, flexibilidade, aprendizagem contínua e equilíbrio entre vida pessoal e profissional. Procuram organizações com uma cultura autêntica, transparência e oportunidades de crescimento.

O setor segurador tem todas as condições para responder a essas expectativas. No fundo, não precisamos de reinventar a essência do setor. Precisamos de mostrar o que ele já é.

Quando os jovens conhecem o setor por dentro, muitos descobrem que afinal não era nada do que imaginavam. E é aí que começa a verdadeira oportunidade.

*Fonte: estudo anual Mediação 2024, divulgado pela ASF

Artigo originalmente publicado no jornal ECO